Prejuízos na Institucionalização Prolongada Parte II

Voltar à primeira parte

 

 

Muitas crianças e adolescentes passam longos períodos em instituições assistenciais esperando a oportunidade de retornar à família de origem ou, através da adoção, serem recebidas numa “Família do Coração”.
As observações que apresento, a seguir, fazem parte de minha experiência profissional junto às crianças e adolescentes institucionalizadas. Faço uso da voz mais importante, que é a da própria criança. Melhor do que uma linha teórica de pensamentos que encontramos na vasta literatura, é a fala dos próprios institucionalizados.
1.
A INSTITUCIONALIZAÇÃO AFETA O AUTO-CONCEITO E A AUTO-ESTIMA: “Eu tinha medo de sair e não conseguir ser alguém” (relato de um jovem que permaneceu institucionalizado durante sua infância e adolescência. Outros expressam dessa forma: “Tia, nós somos desamparados!”, “Meu desenho é feio!” (expressa dificuldade de aceitação), “Não moro no coração de ninguém!”, “Acho que Deus não gosta de mim!”. Algumas crianças ficam embaraçadas e se sentem discriminadas na escola, por morarem numa instituição.
2.
CAUSA SENTIMENTOS AMBIVALENTES: Por um lado, a criança expressa desejo de liberdade através de tentativas e/ou idéias de fuga da instituição. Por outro lado, como mecanismo de autodefesa, demonstra certo conformismo. “Vou ficar aqui até os 18 anos!”
3.
CAUSA SENTIMENTOS CONFUSOS E AMBIVALENTES EM RELAÇÃO À FAMÍLIA
* Sentimentos de raiva e amor: “Tia, não perdôo minha mãe, mas vou tentar perdoar meu pai”. “Se minha mãe não vier nesta visita, eu fico aqui para sempre!”
* Sentimentos de saudade: “Queria que minha família viesse me visitar!” “Tia, você fala com minha mãe pra ela vir?”
* Sentimentos de dor ao se sentir rejeitado ou colocado em segundo plano: observado esta reação no menino que chorou o dia inteiro quando a mãe foi visitá-lo com o seu novo namorado.
* Sentimentos de culpa: “Estou aqui por causa de bagunça!” e, “Acho que meu pai batia em minha mãe todo dia porque eu nasci, ele queria uma menina!”
* Sentimentos de falsas expectativas: “Minha mãe me disse que vou embora com ela amanhã!”
* Sentimentos de fantasia: Alguns criam uma família dos sonhos, usam mecanismos de negação – “Na minha casa era muito bom” – (relato de uma criança que foi para a instituição devido a situação de risco que se encontrava). Na instituição os funcionários são tios, os colegas são irmãos e os visitantes são propensos adotantes. Quando alguém visita a instituição, a criança lembra ao visitante: “Estou para adoção” ou “É você que vai me adotar?” ou, “Tia, ele falou que gostou muito de mim e que se pudesse me adotaria!”
* Sentimentos de insegurança: A rotatividade na instituição (funcionários que deixam a instituição e crianças que voltam ao convívio familiar), leva ao medo de viver novas perdas. “Tia, eu gosto de você, mas é melhor não gostar muito porque um dia você vai embora!” Nestas inseguranças, a capacidade de se relacionar pode ficar afetada: “Não tenho amigos aqui!”
Conclusão: Logicamente, não podemos pensar que os efeitos trazidos pela institucionalização sejam um determinante absoluto para sua vida futura. A colocação em família é o melhor remédio para este coração que anseia por amar e ser amado. Isto garante uma vida emocional saudável até a fase adulta. Acredito que a reintegração familiar e a adoção sejam a melhor maneira de mudar a história dessas crianças. O apego seguro e a nutrição afetiva de uma família proporcionam ao homem fazer-se humano. Deus ordena a nos posicionarmos como agentes de mudanças: “Abre a boca, julga retamente e faze justiça aos pobres e aos necessitados.” Provérbios 31:8 e 9


Susana Medeiros de Carvalho - Psicóloga
susana.medeiros@projetofilhosdocoracao.org.br